Eu vi que todo mundo postou sobre Black Swan. E eu não comentei no blog de ninguém porque eu ainda não vi. Porque o babybrother me contou que alguém arranca o pedaço do dedo de alguém e é nojento e eu não vou gostar. Conclusão: não sei comentar sobre esse filme ainda. Comentarei algo quase tão importante quanto o filme cuja atriz principal é a favorita para a estatueta do Oscar: eu vim falar do Carlos.
Ontem eu cheguei em casa, lavei a louça, coloquei o jantar pra fazer, tirei o lixo. E nessa hora, resolvi enfiar junto um pé de hortelã morto que eu tinha lá em casa. Que eu comprei no Ceasa debaixo de argumentos da vendedora dizendo "não, só está feinho, morrer não vai não." Eu queria algumas folhas de hortelã pra me acabar num mojito, já que comprei rum pra dar e vender. E foi aquele vaso feio de hortelãs feias que levei pra casa. Por 3 reais. Hortelã mumificada, foi pro lixo com vaso e tudo. Mas no pratinho do vaso, uma surpresa. Um tatu-bola.
Quando eu era criança, minha brincadeira preferida era de panelinhas. Não sei exatamente porque não existem mais panelinhas de plástico pra vender, porque a minha avó me dava coleções e coleções de pratinhos e xicarazinhas e panelinhas e fogõezinhos. Eu tinha vários e passava horas brincando com aquilo. Brincadeira barata. E eu passava o dia investigando pelo quintal por ingredientes pra colocar nas minhas panelinhas. A maioria dos meus ingredientes era sempre folhas, mas vez ou outra eu colocava formigas também. E as comia depois, inclusive. Era mesmo uma brincadeira bem real. Fato é que meu ingrediente preferido eram os tatus-bola. Eu tinha vários, tinha coleções, e achava uma graça que eles ficavam lá acondicionados feito lindas bolinhas nas minhas panelinhas. Eu passava o dia rodando tatuzinhos pra lá e pra cá no meio das minhas brincadeiras. Eu era filha única. E os tatuzinhos eram minhas companhias.
Vinte e muitos anos depois fico aqui a pensar que talvez eles tenham entrado em extinção. Porque nunca mais eu tinha visto um. Acho mesmo que a globalização, o crescimento desenfreado das metrópoles, a poluição e o trânsito fizeram com que tatus-bola morressem por falta de lugares mais tranquilos pra morar. Não sei. Mas sei que ontem, no pratinho do meu vaso de hortelãs falecidas, havia um tatu-bola.
Pequenininho, bonitinho, cheio das patinhas. Cinza, como os de antigamente. Gordinho, ele andava esperto pelas beiradas do pratinho. E eu achei que ele tinha cara de Carlos. Eu fiquei ali olhando o Carlos e lembrando da minha infância tranquila. Sem preocupações. Sem obrigações. Minhas tardes quentes de brincadeira solitária. O cheiro do ar daquela época. O som dos passarinhos.
Pensei em jogar o vaso fora, mas deixar Carlos ali. Por me trazer tantas lembranças, Carlos não merecia terminar a vida num saco de lixo. Carlos merecia andar e correr e ter herdeiros que brincassem com crianças e suas panelinhas no futuro. Rá. Crianças. Dessas que já nascem em frente ao computador. Nem sabem o que é panelinha. Nem nunca viram um tatu-bola em suas vidas. Nos dias de hoje, no alto do vigésimo segundo andar de um apartamento, as grandes expectativas de Carlos se resumiriam a se aventurar pela minha própria casa e só. E então eu lembrei do meu tapete egípcio. De pelinhos. Aí eu olhei pro tapete e olhei pro Carlos. Para o Carlos, para o tapete. E assoprei o Carlos, varanda abaixo.
Carlos caiu do vigésimo segundo andar de um apartamento. Na contramão, atrapalhando o tráfego.