Re.co.nhe.cer - 1. distinguir. 2. admitir como válido, verdadeiro.
Eu vim aqui falar sobre isso porque tenho pensado bastante na maneira como as pessoas me reconhecem por aí. Não tipo aquela coisa de reencontrar alguém que você conhecia antes e a pessoa te re-conhece. Não no sentido do RE-conhecer. Nem no sentido de reconhecer 'ah, parabéns, seu trabalho foi lindo'. Não. Vim falar mais no sentido de admitir como válido. Tipo, o que faz pessoas aleatórias me reconhecerem. Aquela criatura que nem me conhece, saber quem eu sou. Mais especificamente, como pessoas que eu nunca disse o meu nome, saberem como eu me chamo. Ok, estou falando de distinguir agora. Que seja. Como as pessoas me distinguem na multidão. Como aquele atendente dos Correios sabe que eu sou eu. Como o antes porteiro do meu prédio sabe que eu sou eu. Tudo bem, saber que eu sou eu pode ser por causa de uma característica que eu tenha, sei lá. É assim que eu distingo as pessoas. Tipo o gordinho da locadora. Ou a robótica da avícola. Ou os turcos do mercado. E o japonês do sacolão. Mas sabe, aleatório. Eu entendo que as pessoas por aí devem me chamar de "a menina do vigésimo segundo que passa com a cara feia" ou "a moça que mora sozinha e não dá caxinha de Natal" ou "aquela colega de escola que atravessa a rua quando vê a gente". Eu admito, sabe. Entendo que as pessoas por aí devem me identificar como frases do tipo. Se elas seguirem a minha linha de raciocínio de identificação de pessoas, claro.
Mas eu não entendo como o porteiro-que-virou-zelador me identifica como Dona Renata. E como o atendente dos Correios me identifica como Renata. E fazem questão de dizer "bom dia dona Renata". Ou "oi, Renata, como vai?". Gente. Eu nunca disse o meu nome pra eles. E Renata é um nome tão comum. E se eles fossem seguir a minha linha de raciocínio de identificação de pessoas com seus nomes, eles nunca chegariam ao resultado de identificar meu nome comigo. Porque eu esqueço total o nome de pessoas aleatórias. Funciona assim: se não é amigo ou parente próximo, esqueço o nome. NUNCA que eu vou lembrar o nome dos porteiros do meu prédio. Ou do atendente de onde quer que seja. Eu quando vou fazer compra em uma daquelas lojas que você tem que dar o nome da atendente no caixa pra coitada ganhar comissão, falo um nome nada a ver quando chega lá. A pobre da atendente faz questão de dizer durante a compra que chama Raimunda e que é pra eu dizer o nome dela lá no caixa. Raimunda. Raimunda. Qual seu nome mesmo? Ah tá, Raimunda. Raimunda, né? Sei. Raimunda. "Qual o nome de quem te atendeu?" JOANA! "Mas não tem nenhuma Joana aqui, senhora." Mas ela falou que era Joana, tenho certeza!!
E então eu, pessoa tão relapsa com algo tão importante como o nome das pessoas, não entendo como gente aleatória lembra do meu. E pior, associa a mim. Renata, um nome tão insignificante (já diria Gabriela). Renata, tanta gente tem esse nome. Renata, quase igual Fernanda (juro que é o nome que as pessoas mais confundem com o meu). Renata, que tanto pode ser confundido com Regina. Ou com Regiane. Ou com Rebeca (eu sou dessas que confunde nomes com a primeira sílaba - ou letra - igual. E que, pra mim, Rogério, Rodrigo, Ricardo, Ronaldo, Roberto é tudo igual). E que, visando meus próprios parâmetros, se a pessoa não tem uma informação marcante sobre sua própria vida, eu nunca irei identificá-la no meio de tanta gente. Tipo que pra mim tem que cair na cova pra eu lembrar da pessoa. Ou não conseguir bater palmas no ritmo da música. Ou ter voz de pônei. Sabe? Pessoas têm que ter identificações além de seu próprio nome. Tem que ter uma característica marcante para serem especiais. E serem lembradas por isso.
Eu, cá comigo, fico aqui pensando qual será a característica marcante minha que faz pessoas aleatórias, como o zelador-que-era-porteiro do prédio ou o atendente dos Correios lembrarem de mim. Como aquela vez que eu cheguei em casa 23:30h e dei BOM DIA pro porteiro. Ou quando estava tendo um dilúvio e eu deixei a lanterna do carro acesa e o interfone estava quebrado e o pobre porteiro andou da portaria até o meu apartamento (é longe) debaixo da maior chuva e ao tocar a minha campainha pra me avisar da lanterna do carro acesa eu abri a porta repentinamente, olhei pra cara dele e gritei QUIÉ?? Ou quando eu deixei a chave de casa cair no vão do elevador e cheguei na portaria chorando que nunca mais eu ia conseguir entrar na minha própria casa porque minha chave tinha caído no vão escuro e infinito que dava para o além e cuja porta ficava bem ali no vão do elevador. Ou quando, esses dias, eu saí de casa e fiquei um tempão olhando pela grade do muro para a floresta vizinha do condomínio procurando o gato da amiga que tinha sumido e as pessoas que passaram me olhavam como se eu fosse maluca e estivesse querendo fugir. Ou quando eu fechei sem querer o registro da água do apartamento e liguei lá na portaria querendo saber POR QUE, MEODEUSDOCÉU, só eu não ia conseguir nunca mais tomar banho na vida. Ou quando, esses dias, eu encontrei com ele no meio do caminho e perguntei rosnando NÃO TEM LUZ NO MEU APARTAMENTO. TÁ CERTO ISSO??
Mas vamos focar no atendente dos Correios. Aquele que me dá oi quando eu chego na agência. OI, RENATA, mais precisamente. Tudo bem que o zelador tem a obrigação de decorar os nomes dos condôminos pra podê-los tratar com mais intimidade (mas eu duvido que ele saiba o de todo mundo, ninguém deve ter tantos micos como eu pra ele lembrar assim do nome facilmente). Mas nos Correios? Imagine o tanto de gente que passa por lá todos os dias. E, passando por lá, qual é a probabilidade de cair pra ser atendido justamente pelo mesmo atendente, visto que fora ele tem mais três? E qual é a probabilidade do atendente prestar atenção no seu nome lendo o remetente da encomenda, visto que a gente não precisa se identificar quando chega? E ainda memorizar? Mas ele deve lembrar de mim pelo tanto de encomendas que eu levo todo dia. Tendo em vista que são encomendas de coisas que eu vendo no Mercado Livre, brinquedos em sua grande maioria, são pacotes que eu mesma faço. E eu tenho habilidade no manejo de pacotes, modéstia à parte, mas nos Correios funciona assim: você paga de acordo com o tamanho do pacote. E eu, claro, adepta a pagar os menores valores, inovo. Inovo no tamanho e formato de pacotes. Já postei objeto triangular. Já postei objeto que fazia barulho. Já postei objeto que não parava em pé. Já postei objeto fofinho. Já postei tanta coisa peculiar que às vezes o atendente pergunta o que é só de curiosidade. E meu atendimento nos Correios ainda tem um plus: as perguntas que eu faço. Oi, posso enviar um LP e escrever no pacote que não é pra anta do carteiro dobrar que senão quebra? Oi, posso enviar Smurfs para a Paraíba? Oi, qual é o maior tamanho de caixa que os Correios enviam? Oi, qual é a maneira mais barata de enviar um caderno e que seja o mesmo preço enviando de onde quer que seja pra onde quer que seja no Brasil? Oi, posso enviar um pacote sem remetente?
Talvez o atendente dos Correios me identifique por fazer as perguntas mais absurdas. Talvez me identifique por enviar os pacotes mais malucos. Talvez me identifique como pessoa suspeita a querer enviar anthrax pelo Correio. Talvez ele me olhe entrando e pense "lá vem a louca da encomend.... OI, RENATA, COMO VAI?"