terça-feira, 22 de novembro de 2011

Sobre Reconhecimento

Re.co.nhe.cer - 1. distinguir. 2. admitir como válido, verdadeiro.


Eu vim aqui falar sobre isso porque tenho pensado bastante na maneira como as pessoas me reconhecem por aí. Não tipo aquela coisa de reencontrar alguém que você conhecia antes e a pessoa te re-conhece. Não no sentido do RE-conhecer. Nem no sentido de reconhecer 'ah, parabéns, seu trabalho foi lindo'. Não. Vim falar mais no sentido de admitir como válido. Tipo, o que faz pessoas aleatórias me reconhecerem. Aquela criatura que nem me conhece, saber quem eu sou. Mais especificamente, como pessoas que eu nunca disse o meu nome, saberem como eu me chamo. Ok, estou falando de distinguir agora. Que seja. Como as pessoas me distinguem na multidão. Como aquele atendente dos Correios sabe que eu sou eu. Como o antes porteiro do meu prédio sabe que eu sou eu. Tudo bem, saber que eu sou eu pode ser por causa de uma característica que eu tenha, sei lá. É assim que eu distingo as pessoas. Tipo o gordinho da locadora. Ou a robótica da avícola. Ou os turcos do mercado. E o japonês do sacolão. Mas sabe, aleatório. Eu entendo que as pessoas por aí devem me chamar de "a menina do vigésimo segundo que passa com a cara feia" ou "a moça que mora sozinha e não dá caxinha de Natal" ou "aquela colega de escola que atravessa a rua quando vê a gente". Eu admito, sabe. Entendo que as pessoas por aí devem me identificar como frases do tipo. Se elas seguirem a minha linha de raciocínio de identificação de pessoas, claro.

Mas eu não entendo como o porteiro-que-virou-zelador me identifica como Dona Renata. E como o atendente dos Correios me identifica como Renata. E fazem questão de dizer "bom dia dona Renata". Ou "oi, Renata, como vai?". Gente. Eu nunca disse o meu nome pra eles. E Renata é um nome tão comum. E se eles fossem seguir a minha linha de raciocínio de identificação de pessoas com seus nomes, eles nunca chegariam ao resultado de identificar meu nome comigo. Porque eu esqueço total o nome de pessoas aleatórias. Funciona assim: se não é amigo ou parente próximo, esqueço o nome. NUNCA que eu vou lembrar o nome dos porteiros do meu prédio. Ou do atendente de onde quer que seja. Eu quando vou fazer compra em uma daquelas lojas que você tem que dar o nome da atendente no caixa pra coitada ganhar comissão, falo um nome nada a ver quando chega lá. A pobre da atendente faz questão de dizer durante a compra que chama Raimunda e que é pra eu dizer o nome dela lá no caixa. Raimunda. Raimunda. Qual seu nome mesmo? Ah tá, Raimunda. Raimunda, né? Sei. Raimunda. "Qual o nome de quem te atendeu?" JOANA! "Mas não tem nenhuma Joana aqui, senhora." Mas ela falou que era Joana, tenho certeza!!

E então eu, pessoa tão relapsa com algo tão importante como o nome das pessoas, não entendo como gente aleatória lembra do meu. E pior, associa a mim. Renata, um nome tão insignificante (já diria Gabriela). Renata, tanta gente tem esse nome. Renata, quase igual Fernanda (juro que é o nome que as pessoas mais confundem com o meu). Renata, que tanto pode ser confundido com Regina. Ou com Regiane. Ou com Rebeca (eu sou dessas que confunde nomes com a primeira sílaba - ou letra - igual. E que, pra mim, Rogério, Rodrigo, Ricardo, Ronaldo, Roberto é tudo igual). E que, visando meus próprios parâmetros, se a pessoa não tem uma informação marcante sobre sua própria vida, eu nunca irei identificá-la no meio de tanta gente. Tipo que pra mim tem que cair na cova pra eu lembrar da pessoa. Ou não conseguir bater palmas no ritmo da música. Ou ter voz de pônei. Sabe? Pessoas têm que ter identificações além de seu próprio nome. Tem que ter uma característica marcante para serem especiais. E serem lembradas por isso.

Eu, cá comigo, fico aqui pensando qual será a característica marcante minha que faz pessoas aleatórias, como o zelador-que-era-porteiro do prédio ou o atendente dos Correios lembrarem de mim. Como aquela vez que eu cheguei em casa 23:30h e dei BOM DIA pro porteiro. Ou quando estava tendo um dilúvio e eu deixei a lanterna do carro acesa e o interfone estava quebrado e o pobre porteiro andou da portaria até o meu apartamento (é longe) debaixo da maior chuva e ao tocar a minha campainha pra me avisar da lanterna do carro acesa eu abri a porta repentinamente, olhei pra cara dele e gritei QUIÉ?? Ou quando eu deixei a chave de casa cair no vão do elevador e cheguei na portaria chorando que nunca mais eu ia conseguir entrar na minha própria casa porque minha chave tinha caído no vão escuro e infinito que dava para o além e cuja porta ficava bem ali no vão do elevador. Ou quando, esses dias, eu saí de casa e fiquei um tempão olhando pela grade do muro para a floresta vizinha do condomínio procurando o gato da amiga que tinha sumido e as pessoas que passaram me olhavam como se eu fosse maluca e estivesse querendo fugir. Ou quando eu fechei sem querer o registro da água do apartamento e liguei lá na portaria querendo saber POR QUE, MEODEUSDOCÉU, só eu não ia conseguir nunca mais tomar banho na vida. Ou quando, esses dias, eu encontrei com ele no meio do caminho e perguntei rosnando NÃO TEM LUZ NO MEU APARTAMENTO. TÁ CERTO ISSO??

Mas vamos focar no atendente dos Correios. Aquele que me dá oi quando eu chego na agência. OI, RENATA, mais precisamente. Tudo bem que o zelador tem a obrigação de decorar os nomes dos condôminos pra podê-los tratar com mais intimidade (mas eu duvido que ele saiba o de todo mundo, ninguém deve ter tantos micos como eu pra ele lembrar assim do nome facilmente). Mas nos Correios? Imagine o tanto de gente que passa por lá todos os dias. E, passando por lá, qual é a probabilidade de cair pra ser atendido justamente pelo mesmo atendente, visto que fora ele tem mais três? E qual é a probabilidade do atendente prestar atenção no seu nome lendo o remetente da encomenda, visto que a gente não precisa se identificar quando chega? E ainda memorizar? Mas ele deve lembrar de mim pelo tanto de encomendas que eu levo todo dia. Tendo em vista que são encomendas de coisas que eu vendo no Mercado Livre, brinquedos em sua grande maioria, são pacotes que eu mesma faço. E eu tenho habilidade no manejo de pacotes, modéstia à parte, mas nos Correios funciona assim: você paga de acordo com o tamanho do pacote. E eu, claro, adepta a pagar os menores valores, inovo. Inovo no tamanho e formato de pacotes. Já postei objeto triangular. Já postei objeto que fazia barulho. Já postei objeto que não parava em pé. Já postei objeto fofinho. Já postei tanta coisa peculiar que às vezes o atendente pergunta o que é só de curiosidade. E meu atendimento nos Correios ainda tem um plus: as perguntas que eu faço. Oi, posso enviar um LP e escrever no pacote que não é pra anta do carteiro dobrar que senão quebra? Oi, posso enviar Smurfs para a Paraíba? Oi, qual é o maior tamanho de caixa que os Correios enviam? Oi, qual é a maneira mais barata de enviar um caderno e que seja o mesmo preço enviando de onde quer que seja pra onde quer que seja no Brasil? Oi, posso enviar um pacote sem remetente?

Talvez o atendente dos Correios me identifique por fazer as perguntas mais absurdas. Talvez me identifique por enviar os pacotes mais malucos. Talvez me identifique como pessoa suspeita a querer enviar anthrax pelo Correio. Talvez ele me olhe entrando e pense "lá vem a louca da encomend.... OI, RENATA, COMO VAI?"


sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Seis coisas que eu gostaria de fazer antes de morrer... e ainda vou!


Andar de balão

Nem pular de paraquedas (é assim que escreve agora, Brasil?), nem de bungee jump, nem de asa delta. Esse negócio de queda livre não me atrai. Meu máximo de radical vai só até ali na tirolesa ou esquibunda. Fato é que eu não sei se é uma ideia que vem do Balão Mágico e nem sei há quanto tempo eu tenho isso na cabeça. Mas eu preciso andar de balão nessa vida. Assim, calmamente, observando a paisagem e olhando o horizonte. Sempre achei lindos os balões e fazem parte da minha admiração por coisas enormes (inclua baleias e aviões aqui) e da minha sensação de infinita liberdade quando estou nas alturas. Eu amo altura.



Passar um Natal em Nova Iorque

Porque eu vi filmes demais de Natal. De Esqueceram de Mim a Férias Frustradas de Natal passando por Um Homem de Família e chegando nO Diário de Bridget Jones. Eu amo filmes americanos de Natal, que mostram a cidade com casas decoradas, a árvore com esquilos, a neve lá fora e dentro de casa todo mundo desfilando seus pulôveres coloridos ao redor de muita comida e confraternização familiar. Tudo bem que essa parte da comida e confraternização eu já tenho aqui em casa mesmo, mas acho muito chato passar o Natal no calor brasileiro. Não dá nem pra botar um pulôver de rena. Eu olho na janela e vejo pessoas no calor de 35 graus, e não a neve bonitinha caindo lá fora. Eu reparo na decoração das casas e só vejo aquele pisca-pisca ridículo-azul-fluorescente-horroroso que as pessoas insistem em comprar na 25 de Março e acham a oitava maravilha do universo e eu só penso na breguice e pobreza. Eu quero passar um Natal de filme em Nova Iorque. Resta saber se a minha avó vai topar ir comigo pra fazer minhas rabanadas lá.



Fazer um pedido na Fontana di Trevi

Porque eu, adepta das tradições e que acredita em todas as superstições do tipo, já joguei milhares de moedinhas em milhares de fontes que passei. Mas eu só passei por fontes brasileiras. E brasileiro você sabe como é, né? Joga a moeda desconfiando que alguém vai pegar. Eu jogo, desconfio, e nem consigo me concentrar no meu pedido. Não satisfeita, ainda olho lá os pedidos dos outros e penso OLHALÁ A PESSOA QUE FEZ PEDIDO COM MOEDA DE 1 REAL!! Eu faço pedidos com moedas de 10 centavos só. E, veja bem, se eu não me empenho em jogar uma moeda de valor maior pra fazer valer aquele pedido maravilhoso que eu fiz, se no ato de jogar a moeda eu já fico aqui pensando na ambição que os outros terão em pegar a minha moeda do meu pedido.... que criatura consegue fazer um pedido direito assim? Dia desses estava eu pela primeira vez na vida lá na Praça Ramos de Azevedo, acho que a mais famosa de São Paulo, olhando a fonte linda e reparando que não tinha nenhuma moeda. Claro, imagine. Quem vai ser o louco de jogar dinheiro fora em pleno centro de São Paulo pra vir dali a 2 minutos um bêbado ou drogado qualquer usar a sua moeda pra comprar droga na bocada mais próxima? Não. Eu quero é ir à Roma. Quero tirar fotos nesses lugares aqui e fazer um pedido com a moeda de maior valor na fonte mais famosa (e mais linda!) do mundo. Eu fui uma criança que se encantava com fontes. Qualquer fonte, de qualquer praça ou edifício comercial. Eu ficava encantada. Eu queria uma fonte no meio da sala, minha gente. Nada mais justo do que fazer um pedido na mais famosa do mundo.



Comer uma pizza italiana

Já que estamos em Roma, por que não aproveitar a viagem? Eu PRECISO nessa vida ainda comer uma legítima pizza italiana. E eu sei que no país da pizza, essa que é minha comida preferida, é bem diferente das que a gente come aqui. Já sei que é uma massa caseira e feita na hora e com consistência diferente que, na maioria das vezes, vai só o molho em cima mesmo. Nada dessa papagaiada de queijo. Nem linguiça. Nem frango. Nem todo esse carnaval aí que brasileiro inventa todo dia pra botar em cima da pizza. Eu quero é sentar naquelas mesinhas de cantina italiana legítima (oi, eu vejo filmes que se passam na Itália - ninguém comeu pizza nO Poderoso Chefão né? Desperdício.) em um fim de tarde e comer A pizza italiana. Como tiver que ser. Só a massa, massa com molho, que seja. Eu quero saber que sabor tem uma pizza na Itália. Não é pedir muito, é?



Abraçar um felino

Leões, tigres, onças. Eu sou apaixonada por felinos (e por isso tenho uma Pandora-Analu em casa) e além de seus pelos incríveis e esperteza peculiar, o que mais me chama a atenção neles são as patas. Coisinha (ou coisona, depende) muito bem feita que é a pata de um felino. Com aquela parte fofinha que dá vontade de ficar apertando até a pata enorme que é o que eu reparo quando vejo um leão no zoológico. Pata de felino está entre as coisas que me encantam. Acho lindo. Então que fique claro que eu queria dar um abraço E UM APERTO DE MÃO em um felino, simples assim.



Conhecer o Silvio Santos

Porque eu cresci assistindo Silvio Santos. E eu sei que dizer que gosto dele hoje é uma coisa brega e que ninguém admite, mas vocês precisavam assistir o que era o Silvio Santos há 20 anos atrás. E o tanto de programas divertidos que tinha. Eu era fã do Domingo no Parque. E do Boa Noite Cinderela que não, não era uma droga. Era uma coisa linda que o Silvio entrevistava menininhas e eu sempre quis ser uma delas. E tinha o Qual é a Música, que eu sempre gostei de ficar lá adivinhando as letras. E o Porta da Esperança que eu fazia bolão pra saber se o pedido da pessoa seria atendido e se ia ter alguém por trás daquelas portas que tocavam aquela musiquinha tão peculiar. E o Topa Tudo Por Dinheiro, que não era essa palhaçada que é hoje com o Silvio gagá, mas realmente tinha pegadinhas que valia muito a pena assistir. Eu chorava de rir. Nem Pelé, nem Elvis. Meu rei é o do auditório. E eu admiro Silvio Santos do começo ao fim a ponto de até hoje assistir seus programas mesmo sem achar tão bons quanto eram antes. E eu preciso conhecê-lo ainda nessa vida (minha avó sempre diz que ele queria muito ser meu avô - e eu sempre respondo que ela devia ter casado com ele pra eu poder passar todos os Natais em Nova Iorque) e não quero que o fato de conhecê-lo seja naquele dia que ele vai morrer e vai passar no caixão em cima do carro de bombeiros enrolado na bandeira do Brasil pela Avenida Paulista no dia que se tornará feriado (certeza!) ao som de Ritmo de Festa. Então um dia eu vou lá, no auditório, ter que bater palma e sentar e levantar e ter gordas pulando em cima de mim pra pegar o aviãozinho e correr o risco do Silvio me bulinar. Silvio Santos, não morra. Eu ainda vou aí te ver.


dia de alegria, então sorria e VEM PRA CÁ...

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Diga-me o que compras...

Eu sempre fui de reparar no que as pessoas compram no mercado. Aquela coisa de estar lá no caixa, esperando a minha vez, sem nada pra fazer, pensando na morte da bezerra. E bater o olho no carrinho da frente e pensar "vixe que esse daí só come porcaria, alá". E bater o olho no carrinho do lado e pensar "nossa que essa daí não sabe fazer compras e vem fazer feira no mercado, olha só que alface passada que ela tá levando". Tem gente que só compra iogurte. E eu penso que deve ter problemas de intestino. Tem gente que compra refrigerante e bolacha. E eu penso que logo vai estar fazendo fila lá no Hospital das Clínicas. Tem gente que compra biquíni e eu penso que vai usar duas vezes isso na praia e depois vai lacear. Ou ficar transparente. Tem gente que compra toalha e eu penso que se a pessoa tiver mais que 1,70m vai ficar pequena. Tem gente que compra só produto de limpeza e eu penso que esse aí tem toc. Mas que a casa dele deve cheirar bem. Tem gente que leva vários sacos de arroz e vários de feijão e uma caixa de óleo e farinha de mandioca. E eu penso que ou a pessoa tem creche ou os filhos comem mais do que deveriam. Tem gente que leva só miojo, mas tem gente que leva macarrão e molho de tomate e eu penso em me convidar pro jantar. E é batata que domingo de manhã tem vários carrinhos no mercado contendo só cerveja, carne e carvão.

Pois estava eu, lá no mercado, sábado de manhã. E tirei uma foto do meu carrinho de compras.

Avaliem.


terça-feira, 1 de novembro de 2011

Oito-quase-Onze coisas que eu queria fazer E FIZ!

Porque está todo mundo falando sobre as coisas que gostaria de fazer e ainda não fez. E eu vou lendo os posts e pensando "isso eu fiz, isso eu fiz, isso eu também fiz". E sabe, nem é pra sambar na cara de vocês dizendo que eu já fiz o que vocês gostariam de fazer nem nada. É que, pensando bem, veja bem, eu tenho em média 10 anos a mais que a mulheradinha ali que está fazendo o post das coisas que gostaria de fazer. E gente, com 10 anos a mais, eu tenho todo o direito de ter feito a minha lista inicial de coisas que gostaria de fazer, né não? Sinal de que eu vivi muito bem esses 10 anos a mais que eu tenho, oras. Já pensou se aos 30 eu ainda tivesse vontade de fazer as mesmas coisas que eu tinha aos 20? Podia ter jogado pela janela meus 10 últimos anos de vida, afinal eles não teriam servido pra nada. Não que a minha lista de coisas que ainda quero fazer na vida tenha acabado, porque não acabou não. Mas os itens que eu tinha nela aos 20 anos eu já fiz. E acho digno compartilhar com vocês (e dizer que SIM. Vocês também podem realizar os itens de suas listas nos próximos 10 anos que ainda estão por vir. É perfeitamente possível. EU FIZ!)



Assistir o show da minha vida
(leia: assistir o show da minha banda preferida de todos os tempos)

Eu não precisava botar foto pra vocês, leitores meus há mais de um ano, saberem né? Mas caso você seja leitor novo: show da minha vida, dia mais lindo de toda a minha vida, eu na pista premium paguei o olho da cara pra ficar na grade e cantar e pular e chorar e descabelar do começo ao fim. Saí quase que carregada desse lugar. E ainda tive um plus. Caso você ainda não tenha lido meus posts sobre esse dia e esteja cheio da coragem, se aventure aqui, aqui, aqui, aqui,aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui. E, se você for uma pessoa de outro mundo que não sabe quem são esses caras aê, legenda: Bon Jovi.



Fazer uma tatuagem

E pra mim não servia uma estrelinha. Nem um coraçãozinho. Nem uma borboletinha. Nem um frufruzinho qualquer desses que as meninas têm de monte por aí. Não. TATUAGEM pra mim é um desenho maior, pelo menos, que a palma da mão. Um desenho que não seja óbvio nem daqueles que você chega lá no estúdio e escolhe nas milhões de pastas disponíveis um que todo mundo tem só porque você achou bonito. Não. Tatuagem pra mim tem que ter significado, tem que ter profundidade. Afinal de contas é um desenho que vai ficar na sua pele para a vida toda. Tatuagem que é tatuagem tem que ser grande pra dar tempo de você sofrer bastante e pensar que porra foi essa ideia que você teve de chorar de dor gratuitamente assim. Porque foi isso que eu pensei durante as 4 horas que demorou pra fazer a minha. Que pega metade das costas (tá, tia da Analu?), mas que as minhas tias não ligam não porque quase todos os meus primos têm várias tatuagens no corpo. O Rafael é o campeão com um dragão que pega as costas inteira. Minha tatuagem são flores de lótus, desenho original feito pelo meu tatuador, com base em detalhes que eu pedi. A flor de lótus nasce em lodo e esgoto, como um símbolo de renascimento da esperança onde não há mais possibilidade. Vários deuses são caracterizados sentados em flores de lótus. Pra mim foi um marco de ter feito 30 anos de vida. Auto-presente. Uma coisa que eu sempre amei, sempre quis fazer e apesar de ter sido a maior dor da minha vida (não pari ainda, gente, quando isso acontecer eu conto pra vocês se dói mais), foi uma das melhores coisas que eu fiz.



Ter um grande amor

Eu sei que o ideal era que ele tivesse durado a vida inteira. Mas apesar de não ter sido um felizes para sempre, foi um conto de fadas. Sem clichês, sem querer maximizar o ocorrido nem nada. Foi um relacionamento de filme. E desses mais comédia romântica possível. Cheio de coisas fofas pra lembrar, eu vejo naquele namoro não a tristeza por ter acabado, mas a ternura da lembrança de ter tido uma coisa que poucas pessoas têm. Eu escrevi aqui esses dias mesmo que as pessoas se juntam por conveniência. E que suportam absurdos na ânsia de mostrar que têm um relacionamento, por pior que seja. Não é assim que funciona, gente. Aquela coisa que a gente vê nos filmes e nos finais de novela e sai suspirando pensando que queria um amor desse pra gente; eu tive. O ideal de namoro que eu tinha quando era criança. Existe. Guardado pra sempre na memória e com a consciência que quase todo mundo morre sem ter. Mas na minha vida aconteceu. E fato: está listado aqui como coisa que eu fiz, porque amor não acontece simplesmente. A gente é que faz acontecer.



Conhecer o paraíso

Entenda por "o lugar mais lindo que eu já fui na minha vida", e classifique por um supérfluo "viajar". Galinhos, no Rio Grande do Norte, por enquanto tem na minha vida a classificação de paraíso. Uma ponta de areia que se estende por dentro do mar e que vai desaparecer em alguns anos com o fato do aquecimento global e aumento do nível do mar. Claro que tudo na minha vida tem que ter uma história que vai além e se você quiser ler sobre a minha visita peculiar ao paraíso, clique aqui. Mas eu acho que dá pra incluir aqui nesse item todos os prazeres por ter conhecido todos os estados brasileiros que já fui. Do clima lindo e cidade civilizada que é Londrina - PR, à imensidão da cidade que é sim maravilhosa Niterói - RJ, passando pelas montanhas de gente-da-gente que me faz ter fome de pão de queijo e doce de leite com queijo branco São Lourenço/Caxambu/Soledade de Minas - MG, chegando na delícia que é ter praias e mais praias sem onda porque são formadas em baías Porto Seguro - BA, e pisar nas dunas mais branquinhas do Brasil em Natal - RN e que estão ali bem pertinho da Ponta do Seixas - eu fui até para João Pessoa - PB nessa vida já. Mas oi, Deyse, não conheço o Maranhão ainda. \o/



Morar sozinha

É o item que deveria estar em primeiro lugar nessa lista. Porque desde que eu me entendo por gente, é tudo o que eu sempre quis. Juro, desde quando eu tinha uns 5 anos. E eu não sei se acontece com vocês pessoas que pensam em morar sozinhas, mas eu sempre me senti estranha no ninho quando morava com meus pais. Aquele sentimento de não pertencer àquele lugar, aquela sensação de ser a forminha de brigadeiro que não cabe na travessa. Eu. Aos 5 anos de vida. Some aí mais alguns anos e imagine o que foi passar adolescência e parte da vida adulta, incluindo medos/decepções/falta de privacidade/vontade de fazer as coisas e não poder e afins que a gente sempre tem enquanto se desenvolve como ser humano. Pois eu moro há pouco mais de 2 anos sozinha. E por mais que o meu avô sempre tenha me dito que seria triste voltar pra casa sem que alguém estivesse esperando, desculpa vô, não acho não. Acho lindo. Chegar na minha casa, com as minhas coisas, um espaço meu e só meu, como uma extensão do meu quarto só que tem mais cômodos. É um prazer indescritível. E não. Eu nunca senti solidão.



Aprender a dançar

Visualize a cena: três anos atrás. Eu em festas/aniversários/churrascos/bailes/comemorações. Sentada na cadeira mais longe possível do palco. No canto, pra não ter como nenhum inconveniente me chamar pra dançar. E quando alguém olhava pra mim, eu tinha a capacidade de me abaixar. Timidez em certas situações, oi. Desengonço total em todo e qualquer movimento que lembrasse sequer uma dança (leia-se varrer a casa), eu. Mas a minha vida mudou. Um belo dia estava eu lá sendo arrastada (à força, não duvidem!) pra uma aula de dança. Zouk, merengue, salsa, samba no pé, rock, samba de gafieira, tango, valsa, twist, rock, samba rock, bolero, tcha tcha tcha, pagode, soltinho, forró. Aprendi tudo o que eu tive direito, cheguei no mestrado de um curso em que os níveis são básico, intermediário, avançado, mestrado e doutorado. E eu ainda vou voltar lá pra terminar. Dançar mudou a minha vida não só no quesito 'deixa eu ficar aqui nesse canto bem escondida pra ninguém me ver' em festas, mas também na auto-estima. No prazer de ter cavalheiros me chamando pra dançar "porque você é a dama que dança melhor nesse lugar". No exercício físico que eu mais me identifiquei nessa vida, eu posso dizer que é a melhor meditação que você pode fazer nessa vida. Porque enquanto você está preocupado em seguir os passos e fazer direito, não dá tempo de pensar.



Ter todas as músicas da minha vida

Já que estamos aqui no meio das artes, era uma coisa que eu sempre quis. Quando eu nasci e comecei a gostar de música vivíamos no meio dos LPs e fitas K7. Depois eu assisti de perto a evolução para o CD. E lembro de mim até hoje, no primeiro dia do meu primeiro estágio, ouvindo o orientador dizer que "não quero ver ninguém baixando mp3 hein?". Mp3. Um negócio que quando ele falou eu fiquei aqui pensando que raios devia ser isso. Pois descobri. Alguns anos depois, me encontro aqui com mais de 20 Gb de mp3 no computador. Porque sim, eu fui alheia à recomendação do orientador, procurei saber que bagulho era esse e de lá pra cá eu só baixei TODAS as músicas que eu sempre quis ter na minha vida. Da discografia completa de Bon Jovi (óbvio que eu tenho todos os cds também, afinal preciso dar dinheirinho pra ele continuar fazendo musiquinhas) a Dançando Lambada, do Kaoma. De Beethoven a Malha Funk. De Dalva de Oliveira a Lady Gaga. Eu tenho uma pasta (e vários backups) invejável (teve várias noivas vasculhando meus arquivos pra escolher músicas para o casamento já) de músicas de hoje e sempre. Das chiques às bregas. Do último disco de Britney Spears à Carmen Miranda cantando Tico Tico no Fubá. A minha vida tem trilha sonora. E a minha trilha sonora tem 20 Gigabytes.



Aprender a bordar

No início da minha vida, eu ficava com uma tia avó enquanto meus pais iam trabalhar. Juju, já avó porém não minha, assim como as irmãs sempre foi dada a trabalhos manuais. Ela tinha um grande vidro branco, redondo como esses aquários de desenho animado, cheio de missangas e contas coloridas. Que ficava alto na estante e talvez por isso era sempre a minha dádiva quando ela me deixava brincar com aquilo. Eu já tinha uns 3, 4 anos e ela, imagine, tinha medo que eu engolisse. Juju não sabia com que tipo de criança estava lidando. Ela achava que eu era uma anta. Juju fazia bolsas de crochê, sachês de sabonete, chinelos de vovó e todos os outros trabalhos manuais que se possa imaginar. E eu estava sempre do lado, olhando curiosa tudo. Talvez por isso eu sempre quis aprender. A bordar, a tricotar, a fazer tudo que a tia Juju fazia. E assim foi com a minha mãe, que fazia a própria unha. E com a minha avó, que sempre foi a rainha do meu coração no quesito culinária. E a minha prima, quando começou a ter aulas de pintura. E a vida foi indo a ponto de hoje eu saber fazer tudo isso. Tricô, crochê, bordado, costura, jardinagem, cozinho, pinto, canto, danço e sapateio. Ok, sapatear ainda não. Mas o resto tudo eu sei fazer. Moça prendada, eu sou.


Aí que essas oito coisas aí de cima são as que eu queria muito ter feito e fiz (aposto que esqueci de citar alguma). Mas, lendo os posts das meninas eu li duas coisas que eu queria comentar aqui, não que estavam na minha lista de coisas a fazer, mas que mesmo assim foram passos importantes da minha vida. Acho bom citar.



Perder o medo de dirigir

Foi o que eu li lá no post da Isadora e vi também lá na Analu e na Rhaíssa que elas colocaram o item aprender a dirigir. Acontece que a Isa deu ênfase ao "perder o medo de", que eu já tive e as queridas amigas reais que leem o meu blog podem confirmar. O importante é que eu decidi colar aqui o que eu disse lá no comentário do blog da Isa: "Sobre perder o medo de dirigir: eu já tive. MUITO medo. Daqueles de dar dor de barriga minutos antes de ir pra aula de direção. Daqueles que meu pai olhava pra mim com cara de decepção ao pensar que deu um carro zero para a filha que nunca vai saber se virar sozinha e rala o carro na saída da garagem. Eu conto pra você que eu superei isso. O mais importante: ter do lado alguém que não tá nem aí para as barbeiragens que você sai fazendo pelo caminho. Que finge que não viu quando você fecha aquele ônibus ou morre na frente de um caminhão. Meu irmão fez essa parte por mim. E aos poucos fui pegando confiança até o dia que não quis mais ninguém do meu lado e hoje todas as minhas amigas dizem que eu estou entre as pessoas que elas conhecem que dirigem melhor. Fato: pare um dia na porta de uma escola e OBSERVE o quanto as outras pessoas do mundo fazem muito mais barbeiragem no trânsito que você." ;)



Doar sangue

Eu vi lá na Rafa, e não que algum dia na minha vida eu tenha desejado fazer isso. Pelo contrário. Apesar de não ter medo de agulha nem pavor de sangue, sei lá. Eu sabia que completamente incômodo não devia ser. Mas admiro muito a coragem e a solidariedade de quem doa. Muito mesmo. Tanto, que deixei a amiga (aquela mesma que me arrastou pra aula de dança) me arrastar para a doação de sangue. Com a desculpa mais deslavada da face da Terra, ela me convenceu e quando eu vi estava lá na cadeirinha incômoda com a enfermeira incômoda enfiando aquela agulha enorme incômoda no meu bracinho antes branco e que depois ficou roxo. Eu, nas duas vezes em que doei, quase desmaiei. Por ter baixado a minha pressão mesmo. Mesmo assim, acho que a experiência foi boa e dou o maior apoio pra quem é macho e vai lá com a cara e a coragem e dá de boa (o sangue, eu digo). Acho digno.


E, como não comentar, o item que eu vi na lista da Gabi (palmas pra ela!)



Dar.um.tapa.na.cara.de.alguém

Vide meu comentário no blog dela: "[Dar um tapa em alguém! DAR UM TAPA EM ALGUÉM!]² Gabi, só você. E, tipo assim, eu já fiz. Foi bonito, sabe? Eu enfiei a mão na cara de uma menina na escola. Naquele esquema que você se rala pra fazer o trabalho mais lindo possível, briga em casa porque a impressora dá pau na hora de sair no dia de entregar o trabalho, chega na escola depois de muito custo com o trabalho na mão porém no seu limite, e a menina que também é do grupo, além de não ter feito nada ainda fez uma piadinha que eu nem lembro mais qual foi, mas sei que pra mim foi o ápice. Foi bonito. Meus cinco dedos fazendo marca na cara dela. E eu até meio que controlei a minha força, mas mesmo assim ela era morena e eu pude ver a marca da minha mão na cara dela. Sensação indescritível de leveza depois disso. Recomendo! rs"

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Lorpa de Ipanema

Então estou eu lá em casa, sofrendo ainda com o término de Cordel Encantado, a novela mais fofa de todos os tempos, procurando me entreter com qualquer novela do tipo mas sabendo que nada vai chegar aos pés da anterior, primeiro porque eu sou saudosa e segundo porque nada mais vai se comparar a tamanha fofura. Depressão pós-novela, oi. E daí que o mundo inteiro se distrai com a novela das 9 e a novela das 11 (?), mas eu sou idosa e durmo cedo. Então procuro assistir a novela das 6 ou das 7. E, quando a novela das 7 não tem algum tema ridículo tipo robôs/etês/dinossauros/cérebro eletrônico/velho oeste, eu curto, sabe. Antes de Cordel Encantado a minha novela preferida foi Cobras & Lagartos, só por causa do MELHOR final de novela de todos os tempos. Ok, R.I.P. Nazaré Tedesco, a melhor vilã de novelas que me fez assistir e gostar muito de uma novela das 9. Certo.

Daí que a novela das 6 atual tem um drama bizarro demais pra ser uma novela das 6, me dá meio que agonia ver a "prima" Fernanda lá deitada em coma a novela toda (aposto que ela vai acordar lá no último capítulo linda e loira como se nada tivesse acontecido) então eu tenho me empenhado em assistir a novela das 7. Aquele Beijo, como diz Miguel Falabella em sua narrativa. E eu gosto dele, gosto da Giovanna Antonelli, o português não é o meu modelo de mocinho em novelas mas ok (reparem que na novela anterior eu SÓ conseguia reparar na boca de velha que Mateus Solano faz quando finge estar dormindo - e avacalhei o galã da Anna - e nessa novela estava eu lá falando do portuga quando vem minha avó "ah, mas o lábio inferior dele estica quando ele sorri, é muito pequeno, fica esganiçado. Reparem que eu tenho a quem puxar), e apesar de Maria Zilda estar fazendo papel de vilã E EU NÃO ME CONFORMO com isso porque ela já foi a minha atriz preferida só por causa de uma personagem fofa que fez em Top Model (eu sei, vocês ainda não eram nascidos), até que estou achando a novela levemente agradável. Mas daí, um belo dia, estava eu dando uma olhada no Facebook e li a Jana falando sobre a música de entrada da novela. E sim, eu tinha reparado que era Garota de Ipanema. Não, eu nunca tinha reparado naquela terceira estrofe, nem sabia que existia. Até cheguei a cogitar uma adaptação da música. Vai que, né? Música de abertura da novela, vai saber. E não. EU NÃO TINHA REPARADO QUE ERA A XUXA QUE CANTAVA.

Eu li aquilo ali na minha timeline que a Jana disse e a minha vida mudou. E agora eu não consigo mais assistir a abertura da novela. Primeiro porque eu acho a Xuxa um porre, segundo porque eu não sabia que existia essa terceira estrofe ridícula na música e terceiro porque meodeusdocéu que ficou ainda pior com essa voz de retardada alegre que a Xuxa tem. Sério. Gente, desculpa. Xuxetes, eu sei que "mescheu com a susxa, mecsheu com vocês", mas não dá. E perdão, amantes da bossa nova. De Tom Jobim, de Vinícius. DESCULPA, MUNDO, por eu achar ridícula essa música que é o nosso símbolo mundialmente. Que todo mundo precisa saber cantar pra mostrar que é brasileiro enquanto faz embaixadinhas e samba de um pé só. Segue abaixo a minha análise da "obra prima brasileira reconhecida mundialmente". Porque é só isso que eu consigo pensar enquanto eu ouço esse porre:


Garota De Ipanema
Tom Jobim

Olha que coisa mais linda (Tom fazia as vezes de Stevie Wonder e era meio cego)
Mais cheia de graça (vide foto abaixo)
É ela menina (pedófilo)
Que vem e que passa (e quando ela passou ele olhou a bunda, claro)
No doce balanço, a caminho do mar (torcendo pra ela dar aqueles mergulhos de filme)

Moça do corpo dourado (de que adianta se vai descascar tudo amanhã?)
Do sol de Ipanema (que dá câncer e envelhece pacas, imagine Helô Pinheiro em 2011)
O seu balançado é mais que um poema (esse balançado me lembra chimpanzé que anda balançando os braços)
É a coisa mais linda que eu já vi passar (aguarde a voz esganiçada de Xuxa mode on)

Ah, porque estou tão sozinha (tipo dor de barriga de depressão de ir à praia sozinha)
Ah, porque tudo é tão triste (nossa que desinteria)
Ah, a beleza que existe (Ilarilariê ô ô ô)
A beleza que não é só minha (se achando a última cocada mole do deserto)
Que também passa sozinha (é a turma da Xuxa que vai dando o seu alô)

Ah, se ela soubesse
Que quando ela passa
O mundo inteirinho se enche de graça
E fica mais lindo
Por causa do amor [Bis] (e.fica.mais.lindo.por.causa.do.amor. Belo argumento, Tom Jobim. Parabéns.)

Repare que "coisa mais cheia de graça", e de glamour.
Com destaque para o "balançado" com postura de um orangotango.
É.a.coisa.mais.linda.que.ele.já.viu.passar.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

E aí você entrou na minha vida.

Depois DELE, eu não quis mais ninguém. Ainda hoje, quando republiquei aquele post aqui, me vieram lágrimas nos olhos de lê-lo. Eu era perdidamente apaixonada por ele. Tanto, que dia desses eu vi um gato branco andando pela sala da minha casa. Que nem é a mesma casa que eu morava quando ele existia, mas ver aquele gato branco e peludo ali, andando do nada no meu apartamento me fez pensar que talvez hoje, mesmo que ele não seja mais vivo, talvez ele ainda vele o meu sono como fazia antigamente.

Depois dele, nem toda a minha paixão por gatos me fez querer trazer outro pra casa. Apesar de eu ter chorado diversas vezes em diversas feiras de animais, quando colocavam mais algum persinha branco em meus braços. Não. Eu queria, mas não queria. Certa de que ninguém mais ia ocupar tanto meu coração bem ali no lugarzinho dos bichos de estimação. Bóris sempre foi único. E insubstituível. Até a sexta-feira passada. Que depois desse dia ele ainda continua insubstituível, mas não mais único.


Estava eu aqui, nesse mesmo computador, sentada nessa mesma cadeira. Ainda me recuperando de uma pereba aí que eu peguei. Com fones de ouvido, ouvindo a linda musiquinha nova da Pitty que eu ouvi no rádio e vim correndo baixar. E entre a voz doce dela cantando que ♪ o mundo acaba hoje e eu estarei dançando, um barulho ensurdecedor invadiu a minha cabeça. O grito inconfundível de um gato. Grito mesmo, não miado. Porque mesmo com fones de ouvido, o meu pensamento foi mesmo "estão matando um gato", tamanha altura de volume. Que triste.

Minha mãe chegou dizendo com a cara mais desesperada do mundo que uma mulher tinha gatinhos no motor do carro. E que, quando foi sair, um deles caiu na roda. Eu me arrepiei na hora e fui, com toda a dor no coração que me cabia, assistir o resgate. A cena do acidente era bem essa: carro parado no meio da rua, mulher estatalada ao volante, não conseguiu sair do carro de desespero. Capô aberto, dois rapazes enfiados nele. Um por cima, outro por baixo do carro. Um puxava uma pata de gato por cima, o outro puxava a outra pata do gato por baixo. Eu ali na torcida, morrendo de dó. O gato miando desesperadamente.

A mulher tinha gatinhos no motor do carro e não sabia. E a pergunta é: há quanto tempo ela não saía com esse carro da garagem, minha gente? Tudo bem que a suposição da minha avó foi a de que alguém colocou os gatos na garagem da mulher e eles entraram ali por livre e espontânea vontade, mas como pode a criatura sair pela cidade com gatos no capô sem saber, pípou? Enfim. Depois de muito custo, os gatos se salvaram. Não todos, porque depois meu pai veio contar que havia outro igualzinho, atropelado ali na rua mais à frente. A mulher, ou quem quer que tenha vindo atrás, não viu o gatinho que caiu do carro. E foi-se o primeiro dos três irmãos de que se teve notícia. Triste.

Eu, quando descobri que os outros dois que haviam restado estavam bem (porque se eu visse um gato machucado morreria ali mesmo), fui lá olhar. Eles, encolhidinhos, choravam e tremiam de medo. Eu, maior amante de gatos da face da Terra, quase chorei junto de dó. A mulher do carro finamente conseguiu sair de dentro dele, e enquanto dizia "não posso levá-los, meu marido vai me matar", entrava novamente dentro do carro e saía o mais rápido possível daqui. Nós, uma caixa de papelão e dois filhotes de gatinho dentro, pensamos em levá-los ao pet shop mais próximo, que lá eles doariam pra quem estivesse interessado. Minutos depois voltou o rapaz, a caixa de papelão, os dois gatos, um pacote de ração. Dizendo que eles não tinham aceitado a nossa proposta.

Ficaram ali no banheiro, a caixa de papelão, os dois gatos, a ração e um potinho de água. Mais tarde, lá dentro já tinha um pote de leite e uma bolacha Maria. Nós aqui, sem sabermos o que fazer com os gatos. Até que alguém olhou pra mim e fez a fatídica pergunta "você não quer levar um?".

Rá.

Eu, pessoa com rinite, morro de espirrar só de ouvir falar a palavra gato. Mas eu tava me coçando (nos dois sentidos). E um deles era tão bonitinho. Prateado. De focinho preto. E olhos azuis. Ou verdes. Ou cinzas, sei lá. Fui lá. Peguei, tirei foto, contei pra galera. Virei os gatos de cabeça pra baixo, tentando ver o sexo. Procurei na internet. Fêmeas, decidi. Apesar da minha avó sempre ter me contado que nunca soube os sexos de seus gatos e que já teve até gato com depressão porque tinha nome de fêmea e era macho. Mas eu olhei direito. E olhei de novo. E apesar de o menino aqui ter dito que a gata dele era fêmea e depois de algum tempo terem nascido testículos, eu decidi: eram fêmeas. Uma prateada e a outra, a que havia caído na roda do carro, rajada. Eu, claro, querendo a mais bonita e saudável (porque se eu tiver outro gato que for morrer logo eu desisto dessa vida), decidi: gatinha prateada, você vai morar lá em casa.

As duas estavam dormindo (ou se protegendo do mundo recém-conhecido porém muito injusto - cuja opinião eu concordo plenamente) abraçadas, e minha mãe já quis me trollar logo de cara sugerindo que eu levasse as duas. Minha gente, eu mal sei se vou aguentar um gato em casa. Tipo, um gato e toda a minha rinite. Que dirá dois! Mas morri de dó do destino do Tobias (eu sei, era fêmea, mas minha mãe não perde tempo trollando a humanidade e decidiu que ela parecia o Tobias do comercial e botou o nome da criatura de Tobias mesmo sendo fêmea - se bem que minha mãe competiu de perto com a outra sugestão de nome dos gatos por aqui: Doce e Gabana eram a segunda opção) e cheguei pra criatura inventora do segundo nome e que deu bolacha Maria com leite e passei a maior conversa tadinho do gatinho tão coitadinho vai morrer de fome por aí. Daí que meu poder de persuasão anda supimpa e eu convenci a pessoa. Tobias teve um destino feliz, mesmo sem ter ficado com a família dele (porque a mulher dele mandou TIRAR ESSA COISA DAQUI), mas a vizinha adotou Tobias de bom grado. E Tobias foi feliz.

Comigo ficou a outra. De cor peculiar e olhos lindos, foi nela que eu coloquei o nome mais legal e cheio de mitologia que eu sempre gostei mais: Pandora. A da caixa do motor do carro. Coube bem na descrição.

Pandora, por volta de seus dois meses, chegou em casa cheia de medo e insegurança. Mas ganhou da vovó, logo de cara, caixinha de areia e ração. E uma dona babona e amante de gatos. Pandora agora reina na casa e na cama que antes pertencia só a mim. Pula feito um macaco em tudo e por "tudo" entenda brinca de amarelinha em cima de mim enquanto estou dormindo. Me escala dos pés à cabeça enquanto estou lavando louça e senta no meu ombro. Ou no alto da minha cabeça. Pandora é um gato que queria ser um macaco. Ou cacatua, que seja. Do alto de seus em média dois meses, enche a casa de todo o seu provável signo de virgem e seus miadinhos faladeiros. Tagarela que só ela, mia de dia e de noite e quando mais der na telha. No chão branco que eu sempre prezei pela limpeza. E na casa cheia de detalhes que eu sempre cuidei da organização e que antes ninguém mais fora eu mexia. Pandora dá conta de tudo e morde tudo. Cheira tudo e brinca com tudo. E pula-pula-pula, mia-mia-mia. Com a felicidade que Deus lhe deu. E o objetivo de alegrar e chamar a atenção da dona mais rabugenta porém babona que ela podia ter. E que não tem mais tempo nem de espirrar, pela antes rinite e alergia de gatos que tinha. Agora minha vontade de espirrar é abafada por frases do tipo PARE JÁ DE MORDER ESSE FIO, TIRE ESSA SUA PATA DO MEU IPHONE e NÃO SENTE NO MEU TRAVESSEIRO.

E aí, depois de idas e vindas da vida, depois de tantos poréns e revés. Você entrou na minha vida. Pandora.

E agora a gente vive assim:



Na mitologia grega, Pandora "a que possui tudo" foi a primeira mulher, criada por Zeus como punição aos homens pela ousadia do titã Prometeu de roubar do Olimpo o segredo do fogo para dar aos homens. Foi a primeira mulher que existiu, criada por Hefesto (deus do fogo, dos metais e da metalurgia) e Atena (deusa da guerra, da civilização, da sabedoria, da arte, da justiça e da habilidade) auxiliados por todos os deuses e sob as ordens de Zeus. Cada um lhe deu uma qualidade. Recebeu de um a graça, de outro a beleza, de outros a persuasão, a inteligência, a paciência, a meiguice, a habilidade na dança e nos trabalhos manuais. Hermes, porém, pôs no seu coração a traição e a mentira. Feita à semelhança das deusas imortais, destinou-a Clus à espécie humana, como punição por terem os homens recebido de Prometeu o fogo divino. Foi enviada a Epimeteu, a quem Prometeu recomendara que não recebesse nenhum presente dos deuses. Vendo-lhe a radiante beleza, Epimeteu esqueceu quanto lhe fora dito pelo irmão e a tomou como esposa.

Epimeteu tinha em seu poder uma caixa que outrora lhe haviam dado os deuses, que continha todos os males. Avisou a mulher que não a abrisse. Pandora não resistiu à curiosidade. Abriu-a e os males escaparam. Por mais depressa que providenciasse fechá-la, somente conservou um único bem, a esperança. E dali em diante, foram os homens afligidos por todos os males.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Sobre Individualidade

Então que eu vim escrever a pedidos. Porque sim, o meu blog, em todos esses anos de existência, às vezes passa por alguns hiatos. O que é normal. Eu nunca pensei em abandonar o blog, ou fechar, ou sumir, como quase todo mundo faz. Mas eu preciso de hiatos. Tem sempre aquele tempo que acontece determinado fato que eu preciso parar pra pensar a respeito. E que, muitas vezes, até gostaria de compartilhar com vocês no blog, mas nem sempre dá pra colocar em palavras o que eu penso ou sinto. Nem dentro de mim, muito menos em um blog.

Os hiatos acontecem nesse tempo em que eu estou tentando processar os fatos. Colocar minha vida nos eixos novamente, limpar minhas energias e refazer minhas defesas depois de um ponto final em alguma coisa qualquer. Porque eu sou assim. Tenho o ascendente em virgem. Preciso começar e terminar tudo. Preciso fazer planilhas de acontecimentos. Preciso registrar. E preciso que no balancete final dos fatos, o crédito e o débito sejam compatíveis.

Acontece que eu ainda estou aqui pensando na individualidade. Na minha, na dos outros. Pensando em como é que a maioria das pessoas consegue abdicar da própria individualidade só pra ter alguém do lado. Só pra sair falando que tem. Gente que de repente sai andando de mãos dadas no shopping e compra presente de dia dos namorados, sem nem gostar da outra pessoa. Sem nem poder dizer que o tempo que passa com aquele indivíduo é agradável. Só pelo simples prazer de sair mostrando para a sociedade que olha, agora eu tenho um namorado. Oi vó, então, você cobrava tanto, agora eu arrumei um namorado. Não importa muito quem é, o que importa é que eu arrumei. A sociedade cobra que as pessoas se relacionem. E escrevam aí o que eu vou dizer: depois da ditadura da magreza, virá a ditadura do relacionamento. Porque eu coloco no mesmo patamar aquela menina pálida e magra que olha com tristeza o pedaço de bolo na vitrine do Amor aos Pedaços e olha pra atendente e pede uma água, com a pessoa que cata qualquer um que nem conhece ali na rua só pra dizer pra todo mundo que namora. A que preço?

A preço de perder a paz. E a tranquilidade. E de ter alguém te ligando de meia em meia hora, te cobrando presença. Alguém te que obriga a ir em lugares que você não gosta ou não quer. E a conviver com pessoas quando tudo o que você quer é ficar em casa vendo um filme. A preço de ter ao seu lado gente que não se preocupa com você, mas com o que você está fazendo que não ligou ainda. Que não respondeu o sms. Que nossa, que absurdo que você está no hospital e não pode me fazer aquele favor que eu precisava agora. Gente que te usa. Gente que invade a sua vida. E que fala dela por aí sem que você permita. Invade a sua individualidade, sua privacidade. Que passa por cima do que você quer, do que você pensa, do que você acha. Que te obriga a fazer o que você não quer. Estar onde não quer. Que preço alto esse a pagar quando se namora sem gostar. Eu não me permito passar por isso, mas vejo muita gente fazendo por aí.

A propósito: oi, vó. Não, não estou namorando. Sim, eu ainda estou solteira. É, porque eu quero. Eu sei, traste disponível pra namorar é o que não falta. Não, não quero. E sim, vou continuar solteira até quando eu quiser. Sim, sou feliz assim. E é, eu sei que não existe príncipe encantado e que é preciso conviver com os defeitos alheios e ceder, mas eu só vou fazer isso quando achar que devo. E diferente do resto da população mundial, eu me recuso a me relacionar só por relacionar. Continuo com a minha opinião de que eu só vou namorar com alguém que, no mínimo, esteja perdidamente apaixonado por mim.

Ah, a paz. Ah que celular silencioso... só troco isso por quem for valer a pena. Mas oras, se for valer a pena, será uma pessoa que, além de me trazer felicidade, não vai perturbar a minha paz. Não é?



sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Sobre o dia que eu fui pro Inferno.

Tudo começou com um e-mail. Pessoa amor mandando escrito "estarei em São Paulo e aviso que na sexta quero ir no Inferno. Se alguém quiser me acompanhar, agradeço." Eu, encantada com o nome do lugar, pesquisei a respeito. Inferno. Um bar na Rua Augusta, a rua mais promíscua de São Paulo. Um inferninho, pra ser mais precisa. Topei.

Já na mesma hora, mandei mensagem pra outra pessoa amor: "vou pro Inferno e preciso da sua companhia, pessoa acostumada a ir pra lá, pra me proteger. Vai tocar rockabilly." Rockabilly no inferno. E eu já imaginei diabinhos com topetes balançando as cadeiras à lá Elvis Presley. Fato que a primeira interessada em ir para o Inferno se interessasse pela banda que ia tocar rockabilly. O gato dela se chama Elvis.

Eu, interessadíssima em ir pro Inferno, me dividi ente a curiosidade de frequentar um ambiente na Rua Augusta (visto que seria a primeira vez já que Renata e Rua Augusta são opostos que não se atraem) e à emoção de estar em um lugar que tocasse rockabilly. Porque veja bem que nessa vida eu frequento bares que tocam rock, mas já estive em samba, pagode, reggae, sertanejo (funk não que funk é demais pra minha pessoa). Mas rockabilly, gente, eu nunca tinha ido. E meu imaginário a respeito de como seria um lugar assim corria solto.

Era ainda durante a semana quando eu recebi um sms falando a respeito de colocar nome na lista da balada. E, cheia de emoção, mandei um sms dizendo "seu nome já está na lista do Inferno." E então que na sexta o moço da oficina quis ficar com o meu carro por lá. E eu cheguei suplicante "mas moço, eu preciso do meu carro, preciso ir para o Inferno no fim de semana!". Ele atendeu prontamente, meio incrédulo na situação, meio com medo de perguntar a respeito. E eu em meio ao compartilhamento de informações com as amigas virtuais no Facebook: "gente, hoje eu vou pro Inferno!" e elas: "ah, eu também queria!!", ligava para as amigas reais e dizia "já peguei o carro pra podermos ir confortáveis para o Inferno!"

Sexta feira à noite, nós no inferninho da Augusta, saídas do Violeta (bar de nome muito meigo para a localização), descendo a rua. E o Inferno demorava a chegar. Amiga amor abordou um segurança: "moço, onde fica o inferno?" e ele: "é só descer!" e pensamos que bom. Pra baixo é sempre o caminho do inferno, claro. Que pergunta. E então eu recebi a ligação: "oi, você tá demorando pra chegar, eu estou aqui na porta do Inferno usando um vestido de oncinha, tá?". E eu ri. Ri desde o começo da sugestão de lugar, ri internamente até chegar lá na porta. Do Inferno. Onde o segurança abriu pra nós a porta pesada dizendo "sejam bem vindas ao Inferno e aproveitem." (e eu lembrei nitidamente do episódio da minha vida em que fui no Castelo dos Horrores do Playcenter). Mas não, ali era só o Inferno. E eu nunca tinha ido em um lugar com o nome tão legal. E nunca tinha sido tão divertido contar para as pessoas que eu estava indo em uma simples balada.


E gente, o Inferno é lindo. Com as paredes revestidas de tecido de oncinha e grandes cortinas vermelhas, lá dentro é a oitava maravilha do mundo. E toca Foo Fighters. E Metallica. E Ramones. E Elvis Presley, claro. E Elvis Costello também. Lá, no Inferno, tem mais mulher do que homem. Porque a entrada para mulheres é vip. Mesmo assim, tem sofás. Muitos sofás. E poucas pessoas. Na verdade, no Inferno tem espaço suficiente pra você se jogar na pista e dançar com os braços abertos. E mexer as perninhas e os braços tatuados arriscando o twist mais desengonçado que conseguir. Sem encostar em ninguém.

No Inferno toca uma banda de rockabilly que se você fechar os olhos se vê em 1950. E tem a impressão que ao abri-los vai ver todo mundo de rabos de cavalo e fitas no cabelo e saias rodadas. E rapazes de brilhantina no cabelo, camiseta branca e jaqueta de couro. E bebendo Heineken, porque é só esse o drink que servem lá no Inferno. E se você sonhar mais um pouco, capaz de enxergar John Travolta cantando pra você ♪ Summer days drifting away, to oh oh the summer nights..



Eu, que cheguei no lugar pensando encontrar mulheres de biquínis dançando com cobras que se transformariam em demônios vampiros à lá Tarantino em cerca de minutos, saí encantada com o bom gosto da pessoa em escolher um lugar tão legal pra irmos. E tão improvável. Tão escondido. E tão vazio. Porque o gosto musical das pessoas para lá em cima, na Augusta, no purgatório, no black music, muito antes do Inferno. E, minha gente. Se no inferno for mesmo tudo isso lindo assim e ainda tocar rock... meu nome já está na lista.


Inferno: recomendadíssimo.



PS: Detalhe considerável: Anna Vitória, a caçulinha, me contou que foi barrada na porta do Inferno por ter voz de neném ♥. Portanto, caso queira se aventurar, certifique-se antes que você está compatível com o lugar.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Ode às sapatilhas vermelhas

Vermelho é a minha cor preferida. Menos para batons. E calças também, visto que antes de nascer eu devo ter pedido pra vir com a bunda avantajada. Apesar disso, já tive uma calça vermelha. Antes, MUITO antes da moda Restart. Aliás, faz tanto tempo que parece que foi em outra vida. Enfim. Eu queria falar de calçados.

Eu era pequena, bem pequena mesmo, quando dei por mim que gostava de sapatos. Muito provavelmente porque eu passei alguns longos anos da minha vida usando botas ortopédicas. E era feio. Bem feio. Mas eu, do alto dos meus 4 anos, não pensava nisso. Eu pensava mesmo era na hora da refeição (queria fugir pra China nessas horas, se pudesse - eu era uma criança avessa à comida). Mas, claro, não é nada fácil viver e mais difícil ainda CONVIVER. Do alto de meus 4 anos de vida, eu na escola, já sabia ler e escrever. E já passava por situações cujas quais me deixavam pensando POR QUE, meu Deus, exatamente, eu vim parar aqui. Tipo quando meus colegas de escola diziam que meus sapatos eram feios. Sim, eu sofri bullying. Por usar botas ortopédicas. E foi TÃO ruim sofrer isso aos 4 anos de idade, que até escrevendo essas linhas aqui, vinte e tralalá de anos depois, eu ainda sinto um pouco da angústia que sentia quando alguém comentava dos meus sapatos. Eu, neném, recém nascida nesse mundo cão, ainda não sabia me defender. Mas com certeza se a vida fosse essa coisa de Benjamin Button e se aos 4 anos de vida eu já fosse tão experiente quanto hoje nessa coisa de lidar com seres humanos, com certeza eu teria tirado aquelas botas ortopédicas pesadíssimas pra dar com aquele solado de madeira bem na cara de quem comentava com maldade a respeito delas.

A meu favor tenho a dizer que aquele bullying (vai tirar sarro de QUALQUER pessoa que use ao menos um aparelho dentário hoje! Capaz de ser processado por danos morais, independente da idade do agressor!) me ajudou no início de meu aprendizado a respeito de como lidar com essa raça que se diz inteligente. E mais: hoje eu tenho os pés mais lindos que alguém poderia ter. E é a opinião geral da nação que tem o prazer de desfrutar da minha beleza.

Passei longos anos (acho que uns três) usando daquele negócio feio que eu não tinha reparado antes, mas que os mini-energúmenos que estudavam comigo naquela época fizeram o favor de fazer com que eu reparasse nisso. E me importasse. Muito. E então nessa época eu já reparava nos pés das pessoas. Nas pessoas da minha idade, principalmente. Nas meninas, quase sempre. Que usavam aqueles lindos sapatinhos envernizados (porque ninguém usava tênis naquela época - ainda não havia produtos importados no Brasil, gente) que hoje só se usa em casamentos ou ocasiões especiais. Mas os sapatos naquela época já eram lindos. Pra mim, principalmente. Que tinha um par de botas ortopédicas preto e um branco. Eu olhava nos pés das coleguinhas e babava nos sapatos. E então meu mundo caiu quando a febre geral da nação foi a Melissinha.

Aos 6 anos, eu me lembro como se fosse ontem, eu fui ao ortopedista que olhou meus pés e disse que nunca mais eu precisaria usar daquelas botas. E essa talvez tenha sido a primeira das alegrias da minha vida. Agora eu poderia abusar de todos os sapatos e sandálias que pudesse do mundo todo. E pedi uma Melissinha. Mas esse mundo não é justo, já diria Amy Winehouse aos 10 anos, e eu descobri que tinha alergia de sapatos de plástico. E a Melissa foi-se embora quase que pra sempre da minha vida. Quase. Porque esses dias eu comprei a primeira Melissa Aranha da minha vida.

Mas aos 6 anos de idade, eu precisava calçar algo nos pés. Tênis era uma coisa que não existia (Fernando Collor só liberou o comércio internacional em 1991), eu não podia usar sandálias de plástico e meus pais não eram lá muito bem de vida a ponto de eu poder ter muitos sapatos. Então eu pedi pra minha mãe uma sandália de tirinhas. Vermelha. Porque eu tinha visto em alguém. Não satisfeita, pedi uma bolsa. Com listrinhas vermelhas. Porque eu também tinha visto em alguém. E lá naquela época começou a minha paixão por vermelho.

De lá pra cá eu quis muita coisa vermelha. Muita mesmo. Mas na época de usar a minha sandália de listrinhas, era obrigatório usar uniforme na escola. Mesmo nas escolas públicas, o que era o meu caso. E o tênis fazia parte do uniforme. E aí mesmo antes do comércio internacional e mesmo antes desses tênis de marca que bombavam (e que perigava a galera voltar só de meias pra casa), a gente usava uma coisa tipo isso. Ou isso. E aí voltei eu para a obrigação de usar calçados ridículos (mas se lembrar das saias azul marinho pregueadas com short vermelho - ao menos era vermelho! - bufante por baixo aí sim me jogo da ponte).

Daí um belo dia eu acordei em 1998. Na faculdade. Fazendo estágio. E precisando usar algo mais plausível nos pés. E então comprei scarpins. Que, dentre todos os modelos de sapatos, eu prefiro. Acho elegante, gosto dessa coisa com salto fino e bico. Eu não nasci para usar sapatos plataforma. E então, minha gente, Marta Suplicy ainda não tinha sido eleita pra trocar toda a calçada da Avenida Paulista. E eu camelei, muito-muito-muito mesmo, em trajetos entre a faculdade e os estágios que tive, por entre aquelas pedrinhas do hell que sempre foram o calçamento da avenida mais importante da cidade. E mano, não era fácil. Pegar ônibus, andar-andar-andar, subir e descer escada. Do alto de toda a minha elegância em scarpins, lá pelas 2 horas da tarde eu já tava querendo que o mundo acabasse em bomba atômica. Não era fácil não. E gente, quer me tirar do sério é eu estar com o pé doendo. Pé doer por causa de sapato está no topo da minha lista de coisas que me deixam de mau humor. Sério. Vontade que o mundo acabasse só pra eu poder parar pra tirar aquela porra de sapato que machuca do meu pé!

E então alguém (que deve ter sido mulher) inventou (ou re-inventou, não sei) a moda das sapatilhas. E aí mudou a minha vida. E então de repente eu usava aquilo que era bonito e confortável. Que combinava tanto com o jeans que eu usava na faculdade, quanto com a roupa social que usava no estágio. Combinava tanto de dia quanto de tarde. E à noite, no começo eu até ia de salto. Elegante, claro. Mas com dois poréns: 1 - NÃO DÁ pra dançar de salto nessa vida. Juro que acho insano quem faz isso. Depois de 15 minutos eu já tenho vontade de todo aquele lance da bomba atômica e tals. E 2 - Eu sou uma mulher alta. 1,72m, pra ser mais precisa. E devo dizer que há poucos homens compatíveis comigo nesse quesito. O mundo é dos baixinhos. E daí entro eu, na balada, do alto de meus 1,72m, olhando somente para homens que eu enxergue acima da linha do meu nariz. E aí vem a decepção: vai ter só uns 2. Muito provavelmente, acompanhados de alguma baixinha de 1,50m.

Sapatilhas são a opção pra proteger os pés (na aula de dança, principalmente). São a opção pra quem não teve tempo de fazer as unhas. E pra quem tem pé feio, porque até quem tem pé de pato fica menos horroroso se usar sapatilha. E a gente que vê de fora também não precisa morrer de horror como morre quando vê uma mulher usando sandálias menores que os pés e com os dedos caindo pra fora. E calos. E formatos de unha horrorosos, mais curvados que de gavião. Eu, apesar de ter pés lindos, odeio gente olhando pra eles. E adotei as sapatilhas para ir à balada TAMBÉM. E pra ir na aula de dança. E em eventos sociais. E em passeios no shopping. E ao cinema. Teatro. Museu. E pra tomar sorvete. E pra buscar a pizza na portaria. E pra ir ao parque. Almoço em família.

Sapatilhas foram uma das melhores invenções da face da terra. Mas as vermelhas, mais. Porque vermelho é a minha cor preferida. Porque eu não consigo olhar uma sapatilha vermelha na vitrine e não me apaixonar no mesmo instante. Porque sapatos vermelhos são diferentes sem deixar de ser clássico. Feminino. Porque você pode estar a maior pobrezinha e descabelada no resto do corpo, que se botar uma sapatilha vermelha vai ficar chique. Vai chamar a atenção. E chama a atenção para os pés, sem mostrá-los totalmente. Sapatilhas vermelhas são o moderno. O meigo. O delicado. E eu vivi uns 3 longos anos da minha vida sofrendo por usar botas ortopédicas, mas se tudo isso foi pra chegar aqui hoje e ter pés perfeitos que fiquem mais lindos ainda usando sapatilhas vermelhas (e eu tenho uma coleção delas)... é porque tudo valeu a pena.



sexta-feira, 16 de setembro de 2011

... foi por causa do imbecil que não soube remar ♪

Então que a Ana Lu entrou no meu carro falando do mundo maravilhoso da Livraria Cultura. Segundo ela, um local mágico para toda a galerinha, cheio de altas aventuras e ação para a turminha do barulho aprontar muita confusão.

Hm. Ana Lu. Sai de Curitiba, a terra do frio congelante e chuva que eu vejo todo dia na previsão do tempo no mapa pintado de azul. Ana Lu saiu de lá, pra chegar aqui na minha terra da garoa e das 4 estações em um dia só e com sua população cheia de problemas respiratórios. Ela veio aqui, DO LADO da minha casa, pra mergulhar em toda a curtição da Livraria Cultura do Shopping Villa Lobos. Que tipo assim, fica há uns 5 quilômetros da minha casa. E que em todo esse tempo nessa indústria vital, desde que fizeram esse shopping há, sei lá, uns 20 anos, eu devo ter entrado nessa livraria umas 5 vezes, no máximo.

Ana Lu saiu de lá da casa dela pra chegar aqui no meu shopping e me contar que entrou no mundo mágico e maravilhoso da Livraria Cultura. Com toda a empolgação que só Ana Lu sabe ter. E me fez pensar em todas aquelas coisas que eu sempre penso quando alguém faz uma coisa desse tipo: eu tou aqui, DO LADO do negócio, e não sei aproveitar. Cara, as pessoas precisam sair da pqp pra chegar aqui e me contar que esse lugar aqui, que fica exatamente do lado da minha casa, é fantástico. Pra que eu possa levantar a bunda da minha cadeira e enfrentar trânsito e poluição e macacos motorizados pra conseguir chegar ali e aproveitar também desse lugar que sempre esteve aqui, mas que eu nunca tive a empolgação merecedora para tal ato. E que, mesmo amando livros e tendo entrado outras vezes nessa e em todas as outras livrarias da zona sul da cidade, só agora, depois de ouvir tamanho relato empolgante saído da boca da Ana Lu, eu consegui entrar naquela livraria já querida mas nem tanto AMADA e me deliciar TANTO com as preciosidades que encontrei por lá.

Ontem eu fui na Livraria Cultura e fali. Fali e fali bonito. E só não fali mais bonito ainda porque uma das coleções de livros que eu queria não estava completa lá. E mais: me controlei muito. MUITO mesmo. Pra não pagar os olhos da cara em séries de tv completas e históricas que têm lá, só lá, e em mais nenhum outro lugar dessa cidade. Força interior, não tem outra explicação.

E então que, eu lá, enfiada nos corredores mais escuros e mais escondidinhos, atolada de livros nos braços e sorriso no rosto, uma hora sentei pra descansar. Do lado da amiga que, como sempre, carregava os livros mais bizarros que alguém pode encontrar. Já quase no finalzinho do horário pra loja fechar, chega ela com um livro chamado Como fazer alguém se apaixonar por você em até 90 minutos. Eu, curiosa a respeito do que exatamente estava escrito sobre isso no livro (imaginei algo tipo maconha+cocaína), peguei para folhear. E eis aqui o trecho que, me desculpem, eu até tirei foto pra poder depois escrever aqui e compartilhá-lo com vocês:

"Imagine que você terá de passar o resto de sua vida em um barco a remo. É um barco grande, portanto é necessário que duas pessoas remem para que ele continue se movimentando. Você e o outro remador devem decidir qual direção seguir, devem remar com o mesmo ritmo e a mesma velocidade e se contentar em ficar cada um do seu lado do barco - caso contrário, andarão em círculos até enlouquecerem."

Daí que o xis da questão no livro era dizer a respeito da importância de se escolher bem alguém para um relacionamento amoroso. Eu, claro, me imaginei na situação. Eu lá, bonita, barco limpinho, envernizei meu remo, coloquei galochas pra não molhar o pé, prendi o cabelo em um rabo de cavalo pra não atrapalhar, levei lancheira, lenço de papel, protetor solar, palavra cruzada e lixa de unha. E então eu estou toda lá preparada pra remar e chega, infelizmente, o meu parceiro de remo. E então eu, que me conheço, até já sei. Vou olhar pra criatura e pensar 'ih, não vai saber'. Ou 'ih, é fraquinho, não vai conseguir'. Ou 'ih, esse aí não conseguiu nem limpar o nariz, será que ele sabe o que é um remo?'

Mas tá, que o livro dizia que o barco tinha que ser remado por dois (e infelizmente eu com certeza já haveria tentado remar sozinha e vi que apesar de todo o meu esforço não tinha saído do lugar), então eu teria que dar uma chance à criatura. 'Remar você sabe, né?' já me imagino perguntando a ele. "Ôpa, claro, sou maravilhoso nisso", coisa que todo homem diz, mesmo sem saber quanto é dois mais dois. 'Tá, vamo lá então, pega aê seu remo', eu finjo que acredito na afirmação dele, não sem antes dar as minhas coordenadas sobre como remar e pra onde. "Xá comigo, gata", ele vai dizer. Eu com certeza sentarei no meu lugar respondendo 'AHAM', com misto de sarcasmo e incredulidade, olhando-o de cima a baixo.

E então consigo claramente me imaginar, alguns segundos depois, olhando para o indivíduo cheio de empolgação e vontade, e imaginando que porra é essa que ele tá fazendo que nós, além de não sairmos do lugar, ainda estamos girando. Até enlouquecermos, como disse o livro. Ou até que EU enlouqueça, visto que não há como provar que essa criatura que os céus selecionaram pra me ajudar a remar tem, realmente, um cérebro que possa enlouquecer. E então nesse momento eu me lembro que as regras do livro foram claras e disseram que cada um deve ficar no seu lugar, do seu lado do barco. Lógico, já que os dois de um lado só fariam mais peso que resultaria no bagulho todo virado e nós dois na água abaixo. Então, infelizmente, eu não posso ir lá e dar uns tapas no infeliz pra ver se acorda. Mas o livro nada disse a respeito de sobre o que falar.

E então, meus amigos, eu estou cá a imaginar a cena. Eu lá, toda pomposa, calça jeans e blusa de florzinha. O boca-aberta do meu parceiro de remo cá, babando, fazendo tudo errado e ainda jogando água em mim, o que felizmente é só água porque eu esperta já teria me esquivado várias vezes do remo que com certeza já teria vindo bem perto da minha linda cara. A minha grande vontade seria mesmo levantar aqui do meu lugar e ir lá enfiar um pedala na cabeça dele pra ver se fica esperto. Mas além de não poder, vejo daqui que ele baba no remo e que com certeza nem assim o indivíduo se daria conta da situação em que estaríamos. E então, nobres senhores, primeiro eu vou analisar a situação como um todo. Objetivo: remar pra sair do lugar. Alguém falou alguma coisa a respeito de pescar? Não. Isso quer dizer que se eu gritar e espantar os peixes, isso nada tem a ver com minha meta a alcançar, certo? Certo. Ok.

Vou recapitular pra vocês lembrarem da situação toda: "Imagine que você terá de passar o resto de sua vida em um barco a remo. É um barco grande, portanto é necessário que duas pessoas remem para que ele continue se movimentando. Você e o outro remador devem decidir qual direção seguir, devem remar com o mesmo ritmo e a mesma velocidade e se contentar em ficar cada um do seu lado do barco - caso contrário, andarão em círculos até enlouquecerem."

E então, minha gente, devo dizer pra vocês que enquanto eu lia esse trecho do livro e minha mente já imaginava tudo isso que relatei aqui pra vocês, no fim do parágrafo eu já tinha no meu imaginário toda a resposta a respeito da atitude que eu tomaria. E eu preciso deixar aqui registrado pra vocês algumas das minhas opções de conversa civilizada que com certeza eu teria com esse energúmeno que botaram pra ser meu parceiro de remo:

1 - Anda logo, sua anta, não tá vendo que o negócio tá rodando?

2 - Tô ficando tonta e vou vomitar em você.

3 - Eu tenho o dia todo, viu?

4 - É pedra aí onde você tá batendo o remo, museu. Não te disseram que quem rema, rema na água? Isso aqui não é jo ken po.

5 - No lugar que você fez curso de remo estava escrito 'aula de voo para patos'?

6 - Da próxima vez que você me jogar água com esse remo, eu aviso que o meu vai escapar da minha mão e que, acidentalmente vai acertar bem para o meio dessa sua cara.

7 - Se você deixar o barco virar, já sabe onde que eu vou enfiar esse remo, né?

8 - Você limpa a bunda com essa mesma eficiência?

9 - Você já pensou na possibilidade de morrer afogado?

10 - TCHIBUM! (todas as opções descritas ou ocultas resultariam nessa onomatopéia)


A canoa virou por deixá-la virar...

Por essas e outras que eu não passo perto da prateleira de livros de autoajuda. Porque se eu levasse um papo com qualquer um desses autores desse tipo de livros os encontraria depois, com certeza, com a pedra amarrada no pescoço e prestes a se jogar do Rio Pinheiros. E ainda daria um empurrãozinho.


Sou mesmo uma flor.